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A SUSTENTABILIDADE DOS MODELOS DE GESTÃO EM TORNO DA GERAÇÃO DE VALOR PARA EMPRESAS

 

Andréia Cristina Bezerra

 

A despeito da evolução dos mercados, notadamente com o impacto dos efeitos da globalização, um maior número de empresas tem revelado posições antagônicas quanto aos modelos de gestão por elas adotados, resgatando o antigo dilema atrelado à priorização dos interesses dos acionistas (stockholders) em detrimento das necessidades impostas por todos aqueles que direta ou indiretamente afetam a empresa ou são por ela afetados, especialmente, funcionários, clientes, investidores e consumidores, que em conjunto com os próprios acionistas, são chamados de stakeholders.

O cerne da questão remete à análise das discussões em torno da concepção de modelos de gestão e governança corporativa, cujo êxito na implementação requer precisão na escolha de tais modelos, tendo como base a resposta a questões basilares, tais como: (i) principal objetivo da empresa; (ii) critérios de valoração de cada um dos componentes do negócio; (iii) núcleos de interesses da empresa; (iv) critérios de medida do desempenho das atividades da empresa; (v) critérios de priorização acerca dos diversos trade-offs que permeiam a gestão; (vi) estratégias para otimizar custos de agência e custos de transação, dentre outras, discutidas no decorrer deste artigo.

Na tentativa de solucionar ao menos em parte essas questões, duas correntes de pensamento extraídas da literatura da cadeira de Administração de Empresas podem ser evocadas: a teoria da maximização da riqueza dos acionistas (value maximization), a qual apregoa, em linhas gerais, que as decisões corporativas devem ser tomadas sob a vertente da maximização do valor da empresa, seguindo pela maximização do valor do acionista e chegando ao fim colimado da maximização do preço das ações. Como contraponto, a teoria do equilíbrio dos interesses dos stakeholders (stakeholder theory) defende que as atribuições dos gestores da corporação devem valer-se de postulados éticos para o fim de atender todos os agentes afetados pelas práticas adotadas pela empresa.

As visões de Edward Freeman e Jonh McVea retratam as primeiras discussões envolvendo a teoria dos stakeholders, podendo ser considerado o artigo clássico de autoria de Freeman - "The politics of Stakeholder Theory: Some Future Directions (1994) - como um dos primeiros trabalhos a discutir explicitamente o tema. Para os estudiosos, a teoria dos stakeholders vem se desenvolvendo sob o prisma de quatro segmentos: (i) responsabilidade social corporativa; (ii) planejamento corporativo; (iii) teoria organizacional e (iv) teoria de sistemas.

O vetor apontado para a responsabilidade social aparece como uma série de abordagens acerca de cases reais e testes empíricos em grandes corporações para fins de comprovação da relação afim existente entre a geração de lucros para as empresas e a adoção de práticas que relevem a realidade de todos os agentes afetados direta ou indiretamente por tais práticas. O segmento do planejamento estratégico, por sua vez, surge sob a argumentação de que o sucesso da empresa está relacionado ao atendimento concomitante de todos os stakeholders e não à tentativa de maximizar a posição de um único grupo.

Por fim, a concepção de empresa na linha das teorias organizacional e de sistemas gira em torno do conceito de que as corporações são sistemas abertos e conseqüentemente estão sujeitas a relacionamentos com partes externas a elas, as quais são responsáveis pela própria sobrevivência da empresa, sendo que apenas a elaboração de estratégias coletivas seriam capazes de otimizar a gestão da empresa.

Em suma, aqueles que apóiam a linha de pensamento provida pela Stakeholder Theory defendem que a visão neoclássica de que a função-objetivo das corporações, consistente da maximização da riqueza dos acionistas, deve pautar-se por direcionamentos mais abrangentes, de modo que sejam levados em consideração os interesses de todos aqueles que de certo modo possam ser atingidos pela busca da implementação dos fins almejados pelas empresas.

A visão de Milton Friedman, prêmio Nobel em economia, ao revés, encontra abrigo na Maximization Value, com o argumento recorrente de que, partindo-se da função-objetivo da empresa que consiste da geração de lucros e que tais lucros devem ser destinados ao aumento do valor da empresa, conseqüentemente, a empresa estaria respeitando os direitos de propriedade e os interesses dos stockholders, promovendo, concomitantemente o bem estar social. Para Friedman, as ações de responsabilidade social pelas empresas são legítimas, desde que tais ações sejam estratégicas no processo de busca de valor (value seeking) pelas corporações.

A acepção mais acentuada dessa corrente ainda atribui à prática de ações voltadas ao cunho social, a origem de um custo de agência adicional à empresa, produto do conflito de interesses entre o principal, representado pelo acionista, e o agente, personificado pela figura do gestor. Autor de destaque da teoria da agência, o professor Michael Jensen que na mesma linha de Anant Sundaram e Andrew Inkpen contrapõe-se à teoria dos stakeholders e afirma que as companhias que adotam essa teoria acabarão passando por uma confusão gerencial, conflitos, ineficiência e talvez por um fracasso corporativo. Jensen aprofundando ainda mais suas críticas à teoria dos stakeholders denota que "essa teoria deixa os executivos sem qualquer princípio para a tomada de decisão, fazendo-os responsáveis por ninguém a não ser por suas preferências pessoais - ironicamente o oposto do que os defensores da teoria dos stakeholders desejam alcançar."

Ante o exposto, fica claro que o entendimento esposado pelos defensores da teoria da maximização do valor dos acionistas deve pautar-se tão somente pela condução de modelos de gestão que tenham como único objetivo a promoção da implementação da lista tríplice da geração de valor, qual seja: maximização do valor da empresa?maximização do valor do acionista? maximização da precificação das ações, ficando condicionado o atendimento aos interesses dos stakeholders apenas nas hipóteses em que puderem ser utilizados para fins do value seeking da empresa .

As discussões trazidas pelas correntes de pensamento lideradas precipuamente por Freeman e Freedman, respectivamente quanto à teoria dos stakeholders e teoria da maximização do valor do acionista, adotam enfoques direcionados aos extremos de cada uma das linhas de pensamento, contudo, sem a pretensão de esgotar o assunto ou trazer qualquer solução simplista para o tema, podemos seguir por uma linha de pensamento menos rígida, capaz de agregar em seus conceitos fatores relevantes extraídos simultaneamente das duas teorias, de modo que os estudos relacionados ao tema possam efetivamente servir de aplicação prática para as inúmeras empresas que atualmente enfrentam altos custos de agência.

Com efeito, o modelo que proponho neste estudo remete ao deslocamento do ponto de origem do aparente conflito existente entre a teoria dos stakeholders e teoria da maximização do valor do acionista. Isso porque grande parte dos trabalhos realizados em torno do tema, acaba por partir do pressuposto de que a origem do dilema está centrada na priorização dos interesses de um grupo em detrimento do outro, quando na verdade o foco de análise deve ter como ponto de partida a questão da definição de um objetivo singular a ser seguido pelo modelo de gestão adotado pela empresa.

Em outros termos, significa dizer que um objetivo especifica o que um tomador de decisões tem como meta de realização e ao fazer uso de um objetivo, acaba por fornecer medidas passíveis de utilização para a escolha dentre as alternativas disponíveis. Ainda assim, poderíamos questionar do porquê da necessidade de um objetivo e se precisamos ter um e por que não podemos adotar vários ao mesmo tempo.

Quanto ao primeiro questionamento, se não tivermos um objetivo, não haverá alternativas de decisões sistemáticas durante o desenvolvimento do negócio da empresa, desse modo, em um dado momento, os gestores da companhia poderiam deparar-se com um leque de projetos, alguns razoáveis, como maximizar o valor de um investimento e outros um pouco mais obscuros, como maximizar o tamanho da empresa, sendo que para um ou outro caso não haveria como ponderar qualquer afirmação sobre seu valor relativo, isto é, não existiriam meios para avaliar qual projeto deveria ser escolhido em razão da falta de um objetivo-parâmetro para a definição desse critério de valor.

Por outro lado, a escolha de objetivos múltiplos certamente gerará incertezas no momento da tomada de decisões e este é exatamente o ponto sobre o qual devemos nos debruçar, considerando que uma das principais críticas que se faz à teoria dos stakeholders diz respeito justamente à multiplicidade de objetivos por ela adotada, isso porque cada componente do grupo dos stakeholders possui interesses completamente divergentes e algumas vezes conflitantes entre si, cite-se como exemplo: os consumidores querem preços baixos e produtos com qualidade, os empregados querem altos salários, boas condições de trabalho e benefícios (e.g. planos de saúde, previdência, férias), os agentes financeiros querem maiores retornos e menores riscos, dentre outros.

Desse modo, vale dizer que toda empresa enfrenta tradeoffs diários em qualquer tomada de decisão, contudo, se a companhia possui objetivos múltiplos, os tradeoffs a serem enfrentados aumentam de sobremaneira os riscos dos custos envolvidos nas escolhas incorretas orientadas pelos seus gestores, bem como incrementam os custos de transação que certamente gerarão impactos negativos no fluxo de caixa da empresa, principalmente quando comparado ao cash flow gerado por empresas que possuem um único objetivo, seja ele qual for.

Deste feito, o modelo que ora proponho tem como base a junção da teoria dos stakeholders e da teoria da maximização do valor dos acionistas, partindo do pressuposto da adoção de um objetivo singular a ser seguido e desenvolvido pela empresa. Nessa linha, cabe à empresa definir os contornos do objetivo por ela escolhido, de modo a fomentar o modelo de gestão que dará sustento ao seu desenvolvimento, devendo, para tanto, considerar os interesses de todos aqueles que serão afetados pelas suas decisões, tendo como fator diferencial e aspecto elementar, o fato de que todos os atos praticados terão como norte a maximização de qualquer função ou variável dentro do longo prazo.

Ainda, em complemento a este modelo é fundamental a observação às lições enumeradas pelas cinco disciplinas relacionadas pelo professor Petter Senge, em suas obras publicadas nos anos de 1990 ("The Fifth Discipline") e 1994 ("The Fifth Discipline - Fieldbook"): (i) domínio pessoal, (ii) modelos mentais, (iii) visão compartilhada, (iv) apredizagem em equipe e (v) pensamento sistêmico, as quais, em conjunto, revelam que as organizações que aprendem (learning organizations) são formadas por sujeitos que expandem ininterruptamente sua capacidade de criar os resultados que desejam e são estimulados novos padrões de comportamento, passando a aspiração coletiva a se sobressair em contraposição aos interesses individuais de cada sujeito. Na visão do autor, tais organizações apenas podem ser construídas quando entendermos que o mundo não é constituído por forças separadas e que na atualidade, a capacidade de aprender contínua e conjuntamente é a única vantagem competitiva sustentável. Desse modo, as empresas do futuro, na visão do autor, são aquelas que descobrem como fazer com que as pessoas se comprometam e queiram aprender o funcionamento da companhia como um complexo de atividades, desde seu ponto mais baixo até o mais alto escalão e para conseguir isso, os gestores das corporações devem ter em mente que os efeitos da maximização do valor de qualquer elemento da empresa apenas serão sustentáveis no longo prazo se levados em consideração todos os componentes que a integram de modo sistemático.

Seguindo este mecanismo, ao passo que a empresa tenderá a enfrentar um menor número de tradeoffs, reduzindo seus custos de agência e conseqüentemente os custos de transação que deles derivam, será capaz de manter um bom relacionamento com todos aqueles que dela participam, direta ou indiretamente, permitindo que haja maior competitividade com as demais empresas que guiam suas decisões com vistas ao value seeking da companhia, deixando que o governo tome medidas quanto a todos os demais fatores que possam de qualquer forma causar entraves ao desenvolvimento de seus negócios, tais como os monopólios, as externalidades, as tentativas de aquisição hostil de controle, dentre outros

Andréia Cristina Bezerra, Advogada em SP,Faculdade de Direito da PUC/SP. Pós Graduação na Ibmec.

 

Bibliografia consultada:

BEER, Michael; NORHIA, Nithan, Breaking the Code of Change. Ed. Harvard Business School Press: 2000, EUA;

FREEMAN, Edward R., The Politics of Stakeholder Theory: Some Future Directions. Business Ethics Quarterly: 1994, EUA;

FREEMAN, Edward R.; MCVEA, John, A Stakeholder Approach to Strategic Management. Darden Business School Working Paper nº 01-02: 2001, EUA;

FRIEDMAN, Milton, The Social Responsibility of business is to increase its profits. Ed. L.P. Hartman: 1998, EUA;

HADDAD, Cláudio, As Empresas Privadas e o "Social". Jornal Valor Econômico, 20.06.2003, São Paulo;

JENSEN, Michael C., Value Maximization, Satakeholder Theory and The Corporate Objective Function. Journal of Applied Corporate Finance: 2004, Oxford;

MANKIW, N. Gregory, Introdução à Economia. Ed. Thompson: 2007, EUA;

MUTO, Silvio, Fim do Dilema?. Revista Capital Aberto, Ed. Simone Azevedo: 2007, n. 52, p. 49-51, São Paulo;

RAPPAPORT, Alfred, Gerando Valor para o Acionista: um guia para administradores e investidores. Ed. Atlas:2001, São Paulo;

SENGE, Peter M., The Fifth Discipline, Ed. Currency Doubleday: 2006, EUA;

SOARES, Rinaldo Campos, Sustentabilidade, A Criação de Valor para a Sociedade. Jornal Valor Econômico: 11.10.2007, São Paulo;

SUNDARAM, Anant; INKPEN Andrew, The Corporate Objective Revisited. Thunderbird School of Management Working Paper: 2001. Disponível em http://ssrn.com//abstract=293219.

 

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