É sempre a mesma história: com as altas das bolsas, ocorrem as operações de fusões e aquisições, quando então ocorre forte oscilação dos papéis da empresa compradora e da vendedora. Assim também é tradicional, a circulação prévia, e irregular de informações privilegiadas dando notícia da respectiva operação. Quando então ocorre a especulação em cima dos papéis dessas empresas, com ganhos certeiros e em situação de desvantagem em relação a outros investidores. O insider trading é dessa forma um crime que ocorre no mercado financeiro, quando alguns investidores compram e vendem ações de empresas, com base em informações privilegiadas.

No conhecido livro “Covil de Ladrões” – Den of Thieves, de James Stewart, retrata-se um ícone yuppie (young upward professional) da década de 80, que ganhou milhões com operações do gênero. No caso, através de uma trinca composta por um operador, um advogado e um auditor, utilizava-se de uma série de informações sigilosas para se comprar e vender ações, de antemão na Bolsa dos EUA, antecipando tendências. Não deu outra, e na terra do Tio Sam, muito embora por pouco tempo, passaram algum tempo atrás das grades, a despeito de acumularem altos valores.

Aqui no país, é notável o avanço da polícia do mercado de capitais, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Atualmente, em casos semelhantes, inquéritos são abertos para se apurar as irregularidades. Já com medidas bastante avançadas de bloqueio liminar de valores até, quando relacionados a possibilidade de operações de origem fraudulenta. Mesmo porque, fato é que o mercado de capitais nacional ainda possui proporcionalmente poucas empresas abertas, de forma que quando ocorre uma operação de M&A (merger and acquisitions) – Fusões e Aquisições, tornam-se spot e centro de atenção de toda mídia. Situação em que fica difícil escapar de comentários e análises posteriores, em torno da operação.

Vale lembrar também que, por aqui muitas vezes o enfoque ainda é concentrado no operador e no empresário ou executivo da empresa. Mas há dois protagonistas da história que precisam ser vistos com cuidado. É o caso do advogado e do auditor ou analista, que em virtude do exercício profissional, têm acesso a informações na fonte. O operador é a ponta final do crime e muitas vezes da informação, mas antes o circuito esquenta com outros agentes que contribuem de forma decisiva.

Mas as possibilidades de fraudes vão adiante, e existem diversos outros exemplos não especificamente relacionados a M&A Assim é por exemplo o caso de empregado de empresa, que na condição de insider natural, sabe de nova patente de produto, ou sabe de novo campo de exploração de petróleo ou minério encontrado. São casos também de informações privilegiadas e que se utilizadas podem conferir ganhos associados ao fato, na Bolsa de Valores. Isso sem comentar que muitas vezes, não só no âmbito empresarial, mas político até, muitos dos ganhos se configuram sempre devido a um acesso a informações quentes, um passo antes do mercado saber. Afinal, se uma mudança de política econômica destrói ou favorece empresas do noite pro dia, que diria da velocidade de mudanças cambiais.

Assim como outrora, a prática do insider trading se configura de um jeito ou de outro, mas que o cerco está se fechando, isso é inegável. Felizmente, graças também à revolução tecnológica, está mais fácil garimpar as informações sobre as companhias, descobrir dados e relatórios empresariais, democratizando o acesso de dados, com baixo custo. Inclusive com acesso plural a cotações online que também podem mostrar sinais de irregularidades. Não obstante, hoje por exemplo, no site da CVM é possível saber de inquéritos sendo julgados, além de extensa informação sobre participantes do mercado. Os tempos mudam, as práticas irregulares são repetidas, mas com tantas regras, disclosure, amadurecimento do mercado de capitais e milhares de investidores atentos a todos os passos, está cada vez mais difícil repetir os feitos de alguns yuppies e insiders, de se alavancar assim. As facilidades tecnológicas criam uma via de mão dupla, pois se por um lado correm os boatos, por outro lado as informações de irregularidades correm rápido também.

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