Em épocas em que são elaboradas diversas teorias sobre a crise de créditos imobiliários sub-prime, vale fazer uma analogia geral aos papéis de alto risco e retorno, tipo junk bonds. Como é notório, o problema da crise no mercado imobiliário norte-americano, parece ser um excessivo crédito imobiliário. Em que castelos de areia estão se desfazendo, por excessivo risco assumido. Mas é bom frisar, que decorrente de crédito exagerado, concedido sem critérios muito confiáveis, devido à busca de altas taxas de retorno, como se vê. Mas por outro lado, a concessão de créditos do gênero, assim como a circulação de junk bonds, pode ser sinal de economia aquecida e em estágio avançado em alguns casos, ou não ?

Os junk bonds, assim classificados como os papéis categoria BBB pra menos, ficaram muito conhecidos na década de 80. Muito utilizados para alavancar compra e venda de empresas, em operações arriscadas de leveraged buyout. O nome deve-se ao fato de não serem papéis relacionados a empresas de primeira linha, blue chips. Ao contrário os junk bonds referem-se a papéis arriscados, muitas vezes emitidos por empresas desconhecidas. Também devido a isso, não foi outro o desfecho deste ciclo. Já que empresas desse perfil, acabavam por gerar fluxo de caixa incompatível com as obrigações assumidas. Parece que não, mas assim como os papéis sub-prime, os junk bonds costumam ser muito procurados com economia bastante aquecida, e ambos caracterizam-se por risco elevado.

No livro “Salve-se quem puder – Uma História da Especulação Financeira”, o autor Edward Chancellor, ilustra bastante esse tipo de situação. Cita vários exemplos históricos de euforias seguidas de alta especulação e depois quebras generalizadas. Um exemplo foi a bolha da internet. No começo, emissões de papéis dos mais variados tipos de empreendimentos de internet. IPO (Initial Public Offering) de todo jeito, mesmo sem muito fundamento. É verdade que muitos empreendedores e investment bankers ganharam muito com essas operações. Mas o que se viu depois, foi uma seqüência de quebras, de empresas que mal decolaram. Um quadro parecido se repetiu: economia aquecida, euforia excessiva, alta especulação com papéis de alto risco, e depois as quebras.

E assim vão os exemplos, que parecem repetir sua trajetória. O que parece ocorrer é que com a economia em alta, aumentam os investimentos. Nisso, procura-se cada vez mais ativos de retorno maior. Significando cair nas mãos de títulos de segunda linha, mais arriscados e com menos garantias. O problema é que como o próprio nome diz, são títulos de maior chance de quebras, que acabam se configurando todavia.

E por que no Brasil há certa dificuldade de compreender a crise sub-prime ? De certa forma, pois aqui sequer ocorreu uma maturidade do mercado de crédito imobiliário, tão como o de mercado de capitais. Afinal, até onde se tem notícia, a crise imobiliária não é assim geral nos EUA. Mas refere-se a um segmento apenas, de créditos concedidos de alto risco. Mas é claro, chegou-se a esse estágio de evolução, pois no padrão de risco médio, o mercado de crédito provavelmente já está repleto. Aí acontece a mesma história, busca-se opções com retorno maior, e é quando se inventam e se lançam títulos de maior risco.

Resumindo, o ciclo que parece se repetir é sempre parecido. A economia vai evoluindo, os mercados vão se aquecendo, começam a faltar alternativas de investimento, vem a euforia, lançam-se títulos de maior risco tipo junk bonds, sub-primes, etc. e na sequência as quebras. E isso sempre foi assim, parece fazer parte da dinâmica dos mercados.

Como referido, aqui em terras tupiniquins nem o mercado de junk bonds floresceu ainda, nem os de crédito imobiliário de alto risco. Mas fica o alerta, pois mesmo no momento atual o mercado de capitais nacional passa por um forte desenvolvimento. Mas em investimentos, a euforia é sempre suspeita, afinal todos almejam uma evolução efetiva e consistente. Que continue a gerar empregos, novas frentes e oportunidades de trabalho, que poderá proporcionar horizonte empresarial melhor a todos. A especulação faz parte, mas quando ela passa a ser protagonista do cenário, a crise vira pano de fundo.

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